27 de agosto de 2026
Pesquisa revisou mais de 700 estudos e aponta que BPA não faz parte das rotas convencionais de produção de PET, PE, PP, PS e PVC
A presença do bisfenol A (BPA) em produtos plásticos é frequentemente associada a preocupações relacionadas à saúde e à segurança dos materiais. Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do ABC (UFABC) buscou aprofundar essa discussão a partir da análise das rotas de produção dos principais polímeros utilizados no cotidiano.
Publicado na revista científica internacional Polymers, o trabalho avaliou a literatura disponível sobre a síntese de diferentes materiais e concluiu que o BPA não é um componente intrínseco das rotas convencionais de produção de PET, polietileno (PE), polipropileno (PP), poliestireno (PS) e policloreto de vinila (PVC).
A pesquisa analisou seis tipos de materiais — considerando PEAD e PEBD dentro da família dos polietilenos — que, segundo os pesquisadores, representam aproximadamente 90% a 95% dos plásticos presentes nas aplicações de uso cotidiano.
Pesquisa analisou centenas de estudos
Para chegar às conclusões, os pesquisadores avaliaram 743 fontes bibliográficas, além de consultarem especialistas da área e analisarem diferentes condições envolvidas na produção dos polímeros.
O estudo considerou não apenas as matérias-primas utilizadas, mas também as reações químicas, os sistemas de catalisação, os processos de produção das resinas e condições como temperatura e pH.
Segundo os pesquisadores, as rotas convencionais analisadas não utilizam o bisfenol A como reagente nem apresentam a molécula como subproduto das reações de polimerização.
As poliolefinas, como PE e PP, por exemplo, são produzidas a partir da polimerização de monômeros olefínicos. Já o PS é produzido a partir do estireno e o PVC a partir do cloreto de vinila. O PET, por sua vez, utiliza matérias-primas como ácido tereftálico e etilenoglicol.
Essas diferentes rotas de síntese mostram que os materiais possuem estruturas químicas distintas dos policarbonatos e sistemas epóxi, nos quais o BPA é utilizado como precursor.
O que isso significa para os plásticos do dia a dia?
A pesquisa ajuda a esclarecer uma percepção bastante difundida de que todos os materiais plásticos teriam relação com o bisfenol A.
De acordo com os autores, PET, PE, PP, PS e PVC não possuem BPA como parte estrutural de sua composição quando produzidos pelas rotas convencionais analisadas.
Isso inclui materiais amplamente utilizados em embalagens, garrafas, recipientes, componentes industriais e produtos de consumo.
Os pesquisadores, entretanto, fazem uma ressalva importante: a ausência do BPA como componente da rota de síntese não significa, isoladamente, que todo produto plástico seja automaticamente seguro em qualquer condição de uso.
A segurança de um material também depende de sua formulação, dos aditivos empregados, do processamento, das condições de utilização e da possibilidade de migração de determinadas substâncias.
O debate sobre o “BPA Free”
Outro aspecto levantado pelo estudo é o uso de expressões como “BPA Free” ou “Livre de BPA” em produtos que, segundo os pesquisadores, não utilizam a substância em sua própria estrutura de fabricação.
Para os autores, a utilização indiscriminada desse tipo de comunicação pode contribuir para uma percepção equivocada de que produtos sem a indicação seriam potencialmente perigosos por conterem BPA.
A discussão, portanto, envolve não apenas a composição química dos materiais, mas também a forma como informações relacionadas à segurança são apresentadas aos consumidores.
O objetivo apontado pelos pesquisadores é ampliar o acesso a informações baseadas em evidências científicas e evitar generalizações sobre materiais que possuem diferentes composições e processos de fabricação.
Regulamentação e segurança química
A discussão ganha relevância em um momento de maior atenção regulatória sobre segurança química, rastreabilidade e materiais destinados ao contato com alimentos.
No Brasil, materiais plásticos destinados a essa finalidade estão sujeitos a requisitos estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), incluindo regras relacionadas às substâncias que podem ser utilizadas e aos critérios de segurança aplicáveis.
Na União Europeia, nos Estados Unidos e em outros mercados, também vêm sendo ampliadas as exigências relacionadas à avaliação de substâncias químicas, à transparência sobre composição e à identificação de possíveis componentes capazes de migrar dos materiais para alimentos ou para o ambiente.
Nesse cenário, estudos que aprofundam o conhecimento sobre as rotas de produção e a composição dos polímeros podem contribuir para decisões regulatórias e industriais mais precisas.
Reciclagem e rastreabilidade também fazem parte da equação
Além da segurança química, os pesquisadores destacam que o futuro dos polímeros depende de avanços relacionados à circularidade dos materiais.
Tecnologias de reciclagem mecânica e química, melhoria da qualidade das matérias-primas recicladas, sistemas de rastreabilidade e infraestrutura adequada de triagem são apontados como elementos importantes para ampliar a reinserção dos materiais na cadeia produtiva.
Nesse processo, conhecer a origem e a composição das matérias-primas se torna cada vez mais relevante, especialmente diante do crescimento das exigências ambientais e regulatórias sobre produtos e embalagens.
A pesquisa também chama atenção para desafios relacionados à pureza dos materiais reciclados, à infraestrutura disponível e à capacidade de ampliar essas tecnologias em escala industrial.
Um estudo que amplia o debate sobre os plásticos
O trabalho realizado por pesquisadores da USP e da UFABC contribui para separar diferentes questões que muitas vezes são tratadas de maneira conjunta no debate público sobre plásticos.
A análise indica que o BPA não integra as rotas convencionais de síntese dos principais polímeros estudados. Ao mesmo tempo, os próprios pesquisadores reforçam que a avaliação de segurança deve considerar toda a cadeia: desde as matérias-primas e formulações até o processamento, a utilização e o descarte ou reciclagem.
A conclusão reforça a importância de decisões baseadas em evidências científicas, especialmente em um setor que passa por transformações simultâneas nas áreas de segurança química, sustentabilidade, regulamentação e economia circular.
Sobre a pesquisa
O artigo “Safety and Innovation in Conventional Plastics: A Review of Polymer Synthesis and Emerging Technologies” foi publicado na revista científica Polymers, da MDPI, em 21 de abril de 2026.
O trabalho tem como autores Derval dos Santos Rosa, Hélio Wiebeck, Alana Gabrieli Souza, Sueli Aparecida de Oliveira e Manoel Lisboa da Silva Neto, pesquisadores da UFABC e da Escola Politécnica da USP.
Acesse o artigo científico completo na revista Polymers
Fonte: pesquisa publicada na revista Polymers e informações divulgadas pelos pesquisadores da USP e UFABC.
