10 de agosto de 2026
Mudanças no mercado internacional de energia, acesso a matérias-primas e modernização do parque industrial estão entre os principais desafios para o fortalecimento da cadeia petroquímica brasileira
A transformação do cenário geopolítico mundial vem trazendo novos desafios para a indústria química e petroquímica brasileira. As mudanças nas rotas de energia, a disponibilidade de matérias-primas e o aumento da concorrência internacional colocam em evidência a necessidade de recuperar a competitividade do setor e criar condições para novos investimentos no país.
O tema foi analisado por André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), que destaca oportunidades relacionadas à expansão da oferta de gás natural na América do Sul, à modernização das plantas existentes e ao desenvolvimento de matérias-primas renováveis.
Gás natural pode ampliar competitividade
Entre as oportunidades está o aumento da produção de gás natural na Argentina, especialmente a partir das reservas de Vaca Muerta. Para a indústria química e petroquímica brasileira, uma maior disponibilidade do insumo pode contribuir para diversificar as fontes de abastecimento, ampliar a liquidez do mercado e reduzir custos.
O gás natural possui papel relevante para a indústria química, sendo utilizado tanto como fonte de energia quanto como matéria-prima para diferentes produtos. Para aproveitar esse potencial, porém, seria necessário avançar na integração da infraestrutura entre os países, incluindo aspectos regulatórios, tributários e tarifários.
A integração regional também poderia abrir espaço para contratos de fornecimento de longo prazo e para a participação de empresas brasileiras em investimentos relacionados à infraestrutura necessária para o transporte do gás.
Matérias-primas competitivas são fundamentais
A disponibilidade de insumos em condições competitivas é apontada como um dos principais fatores para a sustentabilidade da indústria petroquímica brasileira. Os custos de gás natural e nafta têm pressionado o setor, contribuindo para níveis elevados de ociosidade, perda de competitividade internacional e aumento das importações.
Nesse contexto, a avaliação da estrutura da indústria deve considerar diferentes possibilidades de acesso às matérias-primas, sem necessariamente depender de uma integração vertical entre produtores de insumos e empresas petroquímicas.
Além das rotas tradicionais, o Brasil possui uma vantagem relacionada à disponibilidade de recursos renováveis, como biomassa, etanol e óleos vegetais. Esses insumos podem ampliar o desenvolvimento de produtos associados à química verde, biopolímeros e materiais de menor intensidade de carbono.
Modernização das plantas pode ser alternativa aos grandes projetos
Outro desafio está no envelhecimento de parte do parque industrial petroquímico brasileiro. Diante da necessidade de investimentos, uma das alternativas apontadas é a modernização das unidades existentes por meio de projetos de retrofit, em vez da construção de novas plantas a partir do zero.
A decisão por novos empreendimentos depende de fatores como disponibilidade de matérias-primas, escala de produção, infraestrutura, acesso aos mercados consumidores e estabilidade regulatória.
Como projetos greenfield exigem investimentos elevados, longos períodos de maturação e maior complexidade de implantação, a modernização das estruturas já existentes pode representar uma alternativa economicamente mais viável em determinadas situações.
Maior oferta de gás depende de infraestrutura e regulação
Para ampliar o acesso da indústria ao gás natural, a Abiquim defende medidas voltadas ao aumento da oferta, à expansão da infraestrutura de transporte e processamento e ao fortalecimento da concorrência.
Entre os pontos destacados está a necessidade de ampliar o aproveitamento do gás produzido no país, inclusive no pré-sal, reduzindo a parcela reinjetada nos campos para níveis tecnicamente necessários.
A entidade também defende maior acesso às infraestruturas essenciais, harmonização das regulações estaduais e diversificação das fontes de suprimento. Nesse cenário, além do gás argentino, o biometano aparece como uma alternativa complementar para ampliar a oferta de combustíveis renováveis.
Comércio internacional aumenta pressão sobre a indústria
A nova configuração do comércio internacional também exige atenção. A redução gradual de tarifas prevista no acordo entre Mercosul e União Europeia pode ampliar a concorrência para diferentes segmentos da indústria brasileira.
Para a Abiquim, acordos comerciais podem contribuir para a inserção internacional do país, desde que sejam acompanhados de condições equilibradas e previsibilidade para os setores produtivos.
No caso dos produtos petroquímicos, a abertura gradual dos mercados exige que a indústria brasileira avance em produtividade, eficiência e competitividade para enfrentar uma concorrência internacional cada vez mais intensa.
Um novo cenário para a petroquímica brasileira
A combinação entre mudanças geopolíticas, transição energética, disponibilidade de matérias-primas e maior competição internacional coloca a indústria petroquímica brasileira diante da necessidade de repensar suas estratégias.
O fortalecimento do setor passa pela ampliação do acesso competitivo a gás e outras matérias-primas, modernização das plantas, desenvolvimento de rotas renováveis e criação de um ambiente regulatório capaz de estimular investimentos.
Para a indústria de transformação, incluindo a cadeia do plástico, a recuperação da competitividade da petroquímica é especialmente relevante. A disponibilidade e o custo das resinas influenciam diretamente os transformadores e, consequentemente, setores como embalagens, construção, automotivo e bens de consumo.
Diante da nova configuração do mercado global, o desafio brasileiro será transformar seus recursos energéticos e industriais em vantagens competitivas capazes de fortalecer toda a cadeia produtiva nacional.
Fonte: Adaptado de entrevista publicada pela revista Plásticos em Revista, com André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).
