22 de abril de 2026
A poucos meses do início das metas obrigatórias previstas no chamado “Decreto do Plástico”, o mercado brasileiro de reciclagem segue em direção oposta ao esperado. Mesmo com a exigência de uso mínimo de conteúdo reciclado a partir de julho de 2026, a demanda por resinas recicladas registra queda significativa.
A norma, editada pelo Ministério do Meio Ambiente, determina que fabricantes de embalagens plásticas incorporem ao menos 22% de material reciclado em seus produtos. O objetivo é impulsionar a economia circular e reduzir o volume de resíduos destinados a aterros. No entanto, dados recentes indicam um descompasso entre a exigência regulatória e o comportamento do mercado.
Queda na demanda contrasta com capacidade instalada
Levantamento da consultoria MaxiQuim aponta uma redução de cerca de 30% nas compras de rPET — resina reciclada de PET utilizada em embalagens como garrafas e potes. O dado chama atenção especialmente porque o país já possui capacidade instalada suficiente para atender às metas previstas.
Segundo a Abipet, o Brasil alcançou cerca de 510 mil toneladas de capacidade produtiva de rPET em 2024. Ou seja, o desafio atual não está na oferta, mas na demanda por parte da indústria.
Pressão do plástico virgem impacta competitividade
Um dos principais fatores para a retração está no cenário global de preços. A maior oferta de resinas virgens, especialmente nos Estados Unidos e na China, tem reduzido os preços desses materiais, tornando-os mais competitivos em relação aos reciclados.
Em alguns casos, o plástico reciclado chegou a custar significativamente menos que o virgem, mas a dinâmica recente inverteu esse cenário. Como a cadeia da reciclagem envolve etapas adicionais — como coleta, triagem e processamento — os custos permanecem mais elevados, dificultando a competição.
Por outro lado, a instabilidade internacional, como conflitos geopolíticos e alta do petróleo, pode voltar a equilibrar essa relação ao encarecer as resinas virgens.
Riscos regulatórios e impacto social
O descompasso entre a exigência legal e a prática do mercado cria riscos importantes. Empresas que não se adaptarem às metas poderão enfrentar multas elevadas, enquanto o setor de reciclagem sofre com ociosidade e investimentos travados.
Além disso, o impacto se estende à base da cadeia. A atividade de reciclagem no Brasil depende fortemente de catadores e cooperativas, cuja renda está diretamente ligada ao valor dos materiais recicláveis. A queda nos preços reduz a atratividade da coleta, afetando toda a estrutura do sistema.
Incerteza e adaptação gradual
Outro fator que influencia o cenário é a insegurança regulatória. Empresas ainda demonstram cautela quanto à aplicação das regras e à fiscalização do decreto, o que contribui para decisões mais conservadoras no curto prazo.
A expectativa do mercado é de uma adaptação gradual, com parte das empresas avançando no cumprimento das metas enquanto outras aguardam maior clareza regulatória.
Fonte: Adaptado de reportagem de mercado com dados de MaxiQuim e Abipet
