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Demanda interna, indústria e inflação

Depois de um crescimento expressivo de junho de 2003 até julho de 2008, a produção física da indústria de transformação sofreu um forte mergulho em 2009, se recuperou em 2010 e ficou praticamente estagnada em 2011.

Se alguém pegar apenas os anos extremos, segundo semestre de 2008 e final de 2011, chega-se à conclusão óbvia que a indústria perdeu o seu dinamismo, apesar do crescimento da massa salarial, do crédito e das vendas reais do varejo nesse mesmo período. Em um período mais longo, de 2004 até 2011, o crescimento das vendas reais do varejo do Brasil foi de 75% e, mesmo ao longo da crise de 2009, as vendas continuaram a crescer.

Se há algo consensual no Brasil é que a expansão da demanda doméstica foi expressiva ao longo dos últimos oito anos. Mas apesar desse forte crescimento, setores da indústria, acadêmicos e setores do governo começaram a mostrar desconforto com o que passaram a chamar “vazamento da demanda” para produtos industriais importados, principalmente a partir de 2008, quando o superávit da indústria de transformação transformou-se em déficit comercial, que foi de US$ 43,2 bilhões em 2011.

Parece paradoxal, mas a forma mais efetiva de ajudar a produção, no curto prazo, é controlar a expansão do consumo

Mas será que esse chamado vazamento da demanda foi necessariamente ruim para o crescimento da economia nos últimos anos e para o bem estar da população? É possível que não.

O padrão de crescimento recente no Brasil, impulsionado pela expansão da demanda, funcionou enquanto a taxa de desemprego era elevada, ou seja, quando havia uma grande quantidade de recursos ociosos. A partir de certo momento, quando a taxa de desemprego diminuiu, o crescimento passou a ser mais inflacionário devido às pressões de custos, principalmente do mercado de trabalho.

O setor de serviços não teve problemas para repassar aumentos de custo para preços. Esse setor goza de uma proteção natural, já que não é possível importar uma refeição, uma ida ao cinema ou uma consulta médica do exterior. O mesmo não vale para a indústria, cujos produtos podem ser importados por serem por natureza bens transacionáveis e, assim, esse setor não conseguiu repassar os aumentos de custos para os preços.

Como se observa no gráfico abaixo, desde 2004, a inflação ao consumidor de produtos industriais ficou, consistentemente, abaixo do centro da meta de inflação (4,5%) e a do setor de serviços sempre acima.

O que teria acontecido se o governo tivesse tomado medidas protecionistas já em 2008, quando foi lançada a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), e tivesse garantido uma taxa de câmbio mais desvalorizada? Possivelmente essas medidas teriam ocasionado mais inflação dos produtos industriais e, logo, menor consumo desses produtos pela população.

Ao contrário do que muitos afirmam, o aumento das importações de produtos manufaturados a preços mais baixos, devido ao excesso de produção mundial em conjunto com a valorização do real, foi fundamental para conciliar o forte crescimento de demanda com uma inflação que, apesar de elevada, não ultrapassou o teto da meta (6,5%) de 2008 a 2011.

A única forma de o governo garantir um cenário melhor para indústria seria que sua política de maior proteção e/ou desvalorização do real fosse seguida por uma menor expansão da demanda, que reduzisse a inflação, e aumentasse a poupança doméstica para financiar o investimento. Mas o governo está fazendo justamente o contrário, está atuando para expandir também a demanda (e o Produto Interno Bruto, o PIB) ao mesmo tempo em que incentiva a indústria com medidas protecionistas e desvalorização induzida da taxa de câmbio.

Isso poderá não ser um problema neste ano, dada a forte retração do nível de atividade, mas será logo que a economia retome sua trajetória de crescimento entre 3 e 3,5% ao ano. Evitar o “vazamento da demanda” significa preços mais elevados de produtos industriais e mais inflação. O Brasil atual com taxa de desemprego de 6% não é aquele de 2004 com taxa de desemprego de 12%, no qual o crescimento das transferências do governo para as famílias e expansão do crédito garantiam o crescimento do consumo e do PIB.

Parece paradoxal, mas a forma mais efetiva de ajudar a indústria, no curto prazo, é controlando a expansão do consumo. No longo prazo, não há alternativa que não seja investir mais em educação e inovação.

Mansueto Almeida é pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A opinião expressa é a do autor, não exprimindo o ponto de vista do instituto.

Fonte: Valor Econômico

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